Marcelo Santa Cruz
O presente que Elzita espera
Publicado em 11.10.2009
Gilvan Oliveira
Na quarta, em Olinda, a festa pelo aniversário de Dona Elzita vai além das homenagens de parentes, amigos e admiradores. Ganhará feições de ato político. Será celebrada uma missa, às 19h, na capela de São Joaquim, no bairro de Jardim Atlântico. Logo em seguida, será servido um coquetel. Vítimas e parentes de vítimas da repressão e militantes de direitos humanos devem aproveitar o evento e reforçar o coro pela abertura total dos arquivos da ditadura. Uma das presenças mais significativas será a da viúva do fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, Clara Charf, de 85 anos. A secretária de Direitos Humanos do Recife, Amparo Araújo, viúva de Luiz José da Cunha, o comandante Crioulo, militante da ALN, confirmou presença. O ministro da Secretaria dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, foi convidado, mas não tinha confirmado sua vinda até a última sexta-feira.
O pedido de abertura sem restrições vem em contraposição à postura adotada pelo governo brasileiro. Em maio, o presidente Lula enviou ao Congresso projeto de lei para regular a divulgação de documentos públicos. Ele mantém o sigilo para os documentos que tratam de informações que coloquem em risco a defesa à soberania ou à integridade do território nacional, que tratem de negociações ou relações internacionais, planos e operações estratégicas das Forças Armadas, autoridades nacionais, estrangeiras e familiares e atividades de inteligência. Nesse bojo, a família Santa Cruz acredita que podem permenecer secretos dados sobre o que aconteceu a Fernando. No próprio governo, há divergências. O ministro Paulo Vannuchi já se pronunciou a favor da divulgação de documentos que tratem de desaparecidos políticos, seja qual for sua condição.
Em 1973, dona Elzita morava em Olinda e seu filho Fernando, em São Paulo (SP). Ele, a esposa, Ana Lúcia Valente, e o filho de dois anos de idade, Felipe, foram passar o Carnaval no Rio de Janeiro. O casal militava na APML e lá iria se reunir com outros integrantes do grupo. Em 23 de fevereiro daquele ano, Fernando junto com o amigo e companheiro da APML, Eduardo Collier, foram detidos por agentes do DOI/Codi e nunca mais vistos. Em 14 de março de 1974, buscando saber do paradeiro de Fernando e Eduardo, as duas famílias foram ao DOI-Codi em São Paulo. O carcereiro de plantão, conhecido como Marechal, confirmou que eles estavam presos ali, só podendo receber visitas no domingo, dia 17. Foram deixados, então, para eles, objetos de uso pessoal. Mas, no domingo, esses objetos foram devolvidos e as famílias foram informadas que se tratava de um engano: os dois não estavam lá detidos. E nesses 35 anos, não há qualquer indício do paradeiro da dupla nem dos seus corpos, o que transformou Fernando Santa Cruz em um dos principais símbolos de vítima da violência na ditadura.
Dona Elzita escreveu cartas ao então ministro da Justiça, Armando Falcão, noticiando o ocorrido com o filho. Sem respostas. Levou o caso então à Organização dos Estados Americanos (OEA). O governo respondeu à OEA, em 1975, que não havia registros oficiais da detenção de Fernando. Tudo que lhe chegou de informação do filho até hoje foi o comentário que um médico do Exército – ela não disse o nome – fez ao seu marido, o médico-sanitarista Lincoln de Santa Cruz Oliveira, pai de Fernando, falecido em 1986. "Ele era amigo de (Lincoln) Santa Cruz e disse o seguinte: 'tu não tens esperança na volta do teu filho porque eles (agentes da repressão) estão colocando os presos num avião e jogando no mar...' E eu acho que é a verdade mesmo", se resigna. Por esse motivo, Dona Elzita diz, sem amargura, não crer que encontrem o corpo do filho. Mas afirma, com esperança, acreditar que vai encontrar em documentos oficiais a verdade do que foi feito com Fernando naquele sábado de Carnaval, 23 de fevereiro de 1973.
Quando ela mentiu para tirar o título
Publicado em 11.10.2009
Elzita Santa Cruz ganhou notoriedade com o desaparecimento do filho Fernando Santa Cruz. E se orgulha disso. Mas sua inserção na política não pode ser creditada só a esse fato. Dona Elzita revela que sempre gostou da militância. Só não imaginava que ela iria ganhar tamanha repercussão. "Não imaginava tanta política na minha vida. Mas toda a vida eu gostei dela", afirma. É tanto que ela fala com orgulho de suas façanhas e precocidade.
Nascida em Palmares (Mata Sul), Dona Elzita, filha de um senhor de engenho, lembra que na adolescência admirava o líder comunista Luís Carlos Prestes. Lia os jornais da época com especial interesse por política. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde tirou o primeiro título de eleitor. "Foi através da Igreja. Na época, o padre falou que iria ajudar a quem quisesse tirar o título. Mas, antes, ele perguntava em quem a gente ia votar, porque ele não iria tirar título de quem votasse em comunista. Eu menti só para tirar o documento", conta. Além de se orgulhar da façanha, Dona Elzita também se orgulha de ter sido a primeira mulher de sua família a votar, em 1945.
Com a ditadura, dona Elzita experimentou o lado amargo da repressão. Apesar de ficar conhecida pela morte do filho Fernando, seu primeiro revés veio pela militância estudantil do filho Marcelo Santa Cruz, hoje vereador de Olinda pelo PT. Ele teve o diploma de Direito cassado em 1969 e chegou a ser detido. Em seguida, veio um revés maior: a filha Rosalina Santa Cruz, hoje assistente social em São Paulo. Em 1972, ela foi presa por militar na Val-Palmares, grupo armado que lutava contra a ditadura. "Não tive notícias dela por quatro meses. Quando foi visitá-la na prisão, estava com 38 quilos e tinha sofrido um aborto", afirma dona Elzita, que teve 10 filhos do casamento com o médico Lincoln Santa Cruz.
Com a redemocratização, dona Elzita passou ela mesma a militar. Foi uma das fundadoras do PT no Estado, em 1984. Ainda hoje coordena as campanhas do filho Marcelo em Olinda. Pelo conjunto da obra dela e dos filhos, foi uma das três personagens das inserções na TV do programa Memórias Reveladas, do governo federal, exibidas desde o último dia 27. O objetivo é estimular pessoas a repassarem informações ao governo sobre militantes políticos desaparecidos na ditadura.
Publicado em 11.10.2009
A obra foi organizada pela associação suíça Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, com o apoio da Unesco. O objetivo era agraciar as 1000 mulheres em um único ano por suas lutas contra a violência e a discriminação, a opressão e a miséria. O comitê do Nobel não as premiou. Mas o projeto ganhou desdobramentos. Entre eles o da exposição de fotos, que acontecerá de 15 a 25 de outubro na representação regional Nordeste do Minc, na Rua Bom Jesus, no Recife Antigo. As outras pernambucanas fotografadas na exposição são: Givânia Maria da Silva, líder quilombola em Conceição das Crioulas, em Salgueiro, Lenira Maria de Carvalho, presidente de honra do sindicato estadual das trabalhadoras domésticas, Zenilda Maria de Araújo, viúva do cacique Chicão, assassinado em 1998 em Pesqueira, e Vanete Almeida, coordenadora da Rede de Mulheres Rurais. Outra homenagem à dona Elzita está sendo preparada pela família, coordenada pelo vereador Marcelo Santa Cruz. Ele tenta reeditar o livro Onde Está Meu Filho? Escrita pela jornalista e ex-deputada Cristina Tavares, pelos jornalistas Gilvandro Filho e Jodeval Duarte, Glória Brandão e pelo sociólogo e ex-preso político Francisco de Assis, com colaboração do jornalista Nagib Jorge Neto, a obra foi lançado em 1984 pela editora Paz e Terra em edição única, que rapidamente se esgotou. A editora encerrou suas atividades. Marcelo informou que negocia junto à Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), do governo do Estado, uma publicação da obra ampliada e revisada. O livro relata o drama dos familiares e amigos com o desaparecimento de Fernando Santa Cruz. Marcelo acredita que até o fim do ano terá uma definição sobre esse projeto.
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