quarta-feira, 16 de setembro de 2009

DITADURA MILITAR Chumbo cruzado


Fonte: Diário do Nordeste
Divulgação
SYLVIO FROTA: o general descreve bastidores do regime militar, elucidando desentendimento com o ex-presidente Geisel
DITADURA MILITAR
Chumbo cruzado

A ditadura militar ainda vai dar muito trabalho para historiadores, jornalistas e sociólogos. A cada livro surgem novas versões, novos embates, novas revelações, novas interpretações. Chega, agora, às livrarias uma obra das mais importantes para se entender melhor "os anos de chumbo". Os olhares e interpretações sobre este período foram muitos e diversos, a maioria deles apontando os "valores negativos" daquele período. O general Sylvio Frota, em "Ideais Traídos - a mais grave crise dos governos militares narrada por um dos seus protagonistas",(Jorge Zahar Editor, 664 p, R$ 74) conta em detalhes sua visão do movimento de 1964, que derrubou o governo de João Goulart e instituiu a mais longa ditadura do País

Para a professora Maria Celina D´Araújo, o livro traz informações importantes sobre a vida do Exército desde os anos 20, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial e os mecanismos e disputa entre grupos militares sobre as várias quarteladas que culminaram, por fim, com a subida do poder militar em 64. "O leitor encontrará neste livro uma das expressões mais acabadas e extremadas do anticomunismo no Brasil. O anticomunismo, ao contrário do que muitos podem pensar, não foi uma questão de fanatismo. Foi parte das políticas de Estado no Brasil desde os anos 30. Do ponto de vista analítico, articula-se como um sistema de pensamento que os historiadores e cientistas sociais precisam interpretar com mais acuidade", escreve os prefaciadores do livro de Frota, os professores Celso Castro e Celina Maria D´araújo.

Na verdade, o grupo de generais liderados por Sylvio Frota via o comunismo como uma ameaça constante bem antes de 1964. Ameaça tão latente naquele contexto histórico que o general Frota deixa claro, em várias paisagens do livro, que a ideologia marxista estava impregnando o Palácio do Planalto. Ideologia, logicamente, acatada por Geisel e seu "grupelho". Para muitos, a declaração pode ecoar como uma idéia totalmente fora de lugar. No entanto, na visão desses generais, a proposição não deixava de ter suas razões, principalmente se interpretada dentro das doutrinas por eles abraçadas que pontuavam a sociedade, Estado, ordem, hierarquia, entre outros conceitos. O essencial não é tomar partido das facções em jogo pelo poder, mas sim ter em mãos uma importante ferramenta para a interpretação da recente história do Brasil. Para isso, e necessário não confundir o trabalho de Frota com apologias.

Antes de chegar à parte mais importante da obra - a crise política-militar vivida pelo Governo Geisel -, Frota enfoca pelo menos três décadas de história do Exército, na maioria das vezes, confundida com a própria história do País. Décadas, onde se forjaram, dentro das forças militares, as posições extremadas com relação ao anticomunismo. Não se deve esquecer o contexto histórico pós-Segunda Guerra e as posições radicais oriundas da Guerra Fria. São conceitos e idéias forjadas num primeiro momento na Praia Vermelha e, depois, na Escola Militar do Realengo, em cuja grade de estudo inseria-se o culto à Pátria e a veneração a seus símbolos, razão primeira dos ensinamentos. Muitas dessas teorias, logicamente, reducionistas de uma realidade muito mais complexa.

As carreiras das Armas cativou, após a Proclamação da República, um contingente de jovens procedentes da classe média. Portanto, uma oficialidade com o objetivo de ajustar seus ideais à burguesia então nascente no País, burguesia essa que abominava as idéias socialistas. Em conseqüência, cresceu dentro do Exército, juntamente com a consolidação do pensamento de uma burguesia nacional, uma mentalidade oposta ao pensamento marxista.

Mesmo com uma formação apolítica - como frisa Frota - os militares brasileiros imiscuíram-se e foram atores principais de grande parte da história da República no Brasil. Primeiro, derrubando as oligarquias que, segundo Frota, rebaixavam o País ao nível colonial: "o coronelismo humilhando as populações pobres, as eleições, realizadas sob pressões governamentais, depurando adversários vencedores nas urnas, o controle da imprensa e das informações, as restrições dos direitos individuais, as injustiças sociais e as nebulosas perspectivas de uma crise econômica clamavam por uma mudança imediata das estruturas vigentes". O Exército teria, conforme Frota, de interferir e salvar a Nação da catástrofe que se avizinhava. Depois, com a internacionalização das idéias marxistas, o alvo foram os partidos e militantes de esquerda. — Um país subdesenvolvido como o nosso - escreveu o general Sylvio Frota - praticará um verdadeiro suicídio político no dia em que der ao Partido Comunista a existência legal, abrindo-lhe caminho para instalar-se, a médio prazo, no poder".

Em nome da expansão do comunismo, muito mais um "fantasma" do que uma "realidade" no Brasil de então, como vários estudos acadêmicos comprovaram sobre governos de Juscelino, Jânio Quadros e, principalmente, de João Goulart, os militares, diante de um quadro internacional de Guerra Fria, não pensaram duas vezes na destituição de Goulart, assumindo o poder por longos anos (1964-1985).

Neste ponto, talvez, é que o livro de Sylvio Frota ganha maior dimensão. Traições, intrigas, espionagem, jogos de poder se entranharam entre grupos de militares numa disputa acirrada, pontuada por peripécias, ações e ideais, dando uma compreensão mais densa da grave crise político-militar vivida durante o governo Geisel.

Exageros? Logicamente são encontrados no livro de Sylvio Frota, mas dentro de uma linha de pensamento, pelo menos para aquele grupo de militares, cuja lógica era livrar o País do comunismo. A marcha da subversão e o confronto de idéias eram claros para este grupo que se opunha ao governo Geisel. "A subversão, no início de 1975, continuava contida, mas não estava debelada. Entretanto, as promessas de distensão e a ação pertinaz do Movimento Comunista Internacional estimularam-na e deram-lhe novo alento (...) Os órgãos de comunicação, explorados pelos marxistas e seus simpatizantes, martelavam os ouvidos públicos com decantados e repetidos jargões, numa bem orientada campanha psicológica", escreveu Frota.

Frota, em várias partes da obra, defendeu a ação dos torturadores como indispensável. Para ele, tínhamos uma guerra em curso. Depois de assinalar que qualquer lesão física, por mínima que fosse, deveria ser explicada, ele revelava : "vi presos, por ocasião de interrogatórios, insultarem meus oficiais com palavras de baixo calão e soube de muitos que, para provocá-los, cuspiam nas suas faces (...) Os homens que voltavam aos quartéis, com os nervos tensos, ainda sob a emoção de um choque armado em que pereceram ou foram feridos companheiros seus, como poderiam ter serenidade para inquirir adversários com os quais se engalfinharam momentos antes?".

Enquanto a chamada "Comunidade de Segurança" agia, o ex-presidente Geisel colocava em prática a sua distensão lenta, segura e gradual que, segundo Frota, nada mais eram que manobras de cunho comunista. Na mesma panela, além de Geisel, o presidente, Frota colocava também todos os assessores palacianos.

— Não poderiam surgir mais dúvidas de que o presidente e o ministro Golbery estavam, perfeitamente identificados quanto a posição ideológica (de centro-esquerda). Esta, aliás, devia ser a situação da maioria do grupo de assessores presidenciais, haja vista o reconhecimento da República da China e a posterior afirmação ostensiva do senhor Humberto Esmeraldo Barreto - assessor de imprensa da Presidência da República — à revista Veja, dizendo-se homem de "centro esquerda".

Os choques entre os dois grupos foram tornando-se cada vez mais constantes, culminando com a demissão de Frota pelo então presidente Geisel. Demissão até hoje emblemática, já que para muitos, inclusive Geisel e Golbery, Frota manobrava junto aos generais para ocupar a cadeira de presidente do País. A versão de Frota é bem outra. Jura sua lealdade a Geisel e que jamais tentou nenhuma manobra com tal objetivo. Sua versão também é recheada de traições e mentiras urgidas pelos próprios companheiros de farda que, abandonando os ideais do Exército, aliaram-se ao grupo "comunista palaciano".

O próprio Frota não foi o primeiro a ser demitido. Antes foram expurgados seus amigos de farda, como por exemplo, o general Lyra Tavares e, depois, o general D´Avila Melo. Enquanto isso, no Congresso, os deputados denunciavam a tortura; enquanto nos porões da ditadura morriam o jornalista Wladimir Herzog e o operário Manuel Filho. Sobre Herzog, Frota frisa:

— Em 25 de outubro, nas dependências do Centro de Operações de Defesa Interna do II Exército, suicidou-se o jornalista Wladimir Herzog, como provado ficou em inquérito militar de que foi encarregado o general-de-brigada Fernando Guimarães Cerqueira Lima (...) Conhecida a notícia da morte de Wladimir Herzog, agitam-se os setores de imprensa e os jornais desencadeiam violenta campanha, lançando libelos acusatórios de assassínios aos elementos do Exército.

Além dos problemas internos, as relações internacionais do governo Geisel não agradavam os generais ligados a Frota. Questões que geravam ainda mais choques sobre a chamada linha dura do Exército e o governo Geisel, como a suspensão do bloqueio econômico-político a Cuba e o reconhecimento da República de Angola. O cerco fechava-se, principalmente, quando Geisel começou a nomear generais de sua confiança para áreas estratégicas, demitindo homens de confiança de Frota.. Nomeações, logicamente, que feriram profundamente a autoridade de Sylvio Frota, culminando, no final de muitas manobras dos dois lados em confronto, com a própria demissão do general. Segundo Frota, ele jamais manobrou com os demais generais para "emparedar" Geisel, sendo vítima, sim, de "jogos" palacianos e de alguns generais, como Hugo Abreu, Belfort Betylem, Argus de Lima e João Baptista Figueiredo para afastá-lo do governo. Sobre um suposto "Manifesto aos Generais", Frota diz que jamais existiu. Sua última audiência com Geisel foi marcada por hostilidade de ambas as partes. Ele conta:

— Irritado, porque um dos seus objetivos, que era meu pedido de demissão, não estava sendo alcançado, declarou o presidente em tom áspero:

— Eu estou incompatilizado com você; solicite demissão.

O meu pedido de demissão colocar-me-ia nas mãos dos intrigantes do palácio, que buscariam no seu arsenal as calúnias as mais vituperiosas para explicá-lo. Não poderia ceder e usei em revide à grosseria irreverência de Geisel a resposta abaixo sintetizada.

— Não vejo razão para demitir-me porque não me julgo incompatibilizado com o cargo.

Exasperou-se o presidente, o que por seu temperamento emocional não constituía surpresa, bateu com a palma da mão na mesa e gritou:

— Mas o cargo é meu.

Incontinente, retruquei:

— Por isso cabe ao senhor demitir-me, pois não pedi para ocupá-lo....

Replicou o general Geisel, em voz alta:

— É o que farei.

Nesta briga entre as "pombas" e os "falcões" muitas lacunas ainda existem. A peleja pelo poder entre as duas facções começou ainda no primeiro governo militar, de Castello Branco, terminando com o fim do ciclo militar com o general João Baptista Figueiredo. A verdade depende da visão de cada um dos participantes, principalmente de seu juízo histórico. Para Frota, a revolução de 64 nada teve de revolução. Foi apenas um golpe militar, desencadeado para evitar a revolução socialista, abertamente anunciada pelos marxistas, cujo arrebatamento faria ruir a democracia. Falar de democracia em meio a uma ditadura não deixa de ser uma falácia. O mundo mudou com a queda do Muro de Berlim, o comunismo, em tese perdeu terreno e a cena mundial é bem diferente da dos anos de chumbo. O livro do general Sylvio Frota não deixa de ser um importante documento histórico para, cotejado com outras fontes, se chegar a verdade possível. Seu livro sugere hipóteses e ângulos antes inexploradas para melhor compreesão e interpretação dos "anos de chumbo" e para a compreensão das idéias da "linha dura" e dos jogos de poder na época.

José Anderson Sandes

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