sábado, 13 de outubro de 2012

Associação Nacional de História (ANPUH) responde à crítica 


da Revista Veja sobre Hobsbawm

Em nota, entidade afirma que Veja teria reduzido historiador a um "idiota moral"

A nota de repúdio foi publicada no perfil da entidade no último sáb
ado. Confira, na íntegra, o texto da Associação Nacional de História, que teve como título, "Hobsbawm: Um dos maiores intelectuais do século XX".

"Na última segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm. Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais. Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um “acadêmico”, no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental. Fiel à tradição do “intelectual” como divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano. Claro está que, autor de obra tão diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias. Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.

Eis que, no entanto, a Revista Veja reduz o historiador à condição de “idiota moral” (cf. o texto “A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm”, publicado em www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX. Veja desconsidera a contradição que é inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia, inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz e com o pluralismo. A Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação. O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto “historiador esquerdista”, dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a “análise” acerca do falecido historiador. Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela, Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada."

São Paulo, 05 de outubro de 2012

Diretoria da Associação Nacional de História
ANPUH-Brasil
Gestão 2011-2013

domingo, 2 de setembro de 2012

Fogo

O fogo purifica, destrói, assusta. O fogo mata! Ao fogo sempre foram lançados os que eram julgados impuros pela Inquisição. Quem pode julgar? Quem pode não estar no fogo um dia?
O fogo mata!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Podridão do período sujo da ditadura chega até Campos

 
14 de maio de 2012 · 15:55
 
MPF de Campos vai investigar incineração de corpos em usina
Leonardo Berenger
 
Segundo relato de torturador, 10 corpos foram incinerados na Usina Cambaíba durante a Ditadura
 
O Ministério Público Federal (MPF) de Campos instaurou nesta segunda-feira (14/05) um procedimento investigatório criminal para apurar a incineração de pelo menos 10 corpos na Usina Cambaíba durante a Ditadura Militar, conforme relato do ex-delegado da Policia Civil Cláudio Antonio Guerra, no livro "Memórias de uma guerra suja". Na portaria que instaura o procedimento, o procurador da República Eduardo Santos de Oliveira pede que sejam expedidos ofícios à Comissão Nacional da Verdade e à Comissão Especial de Mortos Desaparecidos, requisitando informações e documentos relacionados ao caso.
 
Para o MPF, os agentes públicos que se excederam e cometeram crimes durante a ditadura agiram como representantes de todo Estado, e não apenas de seu segmento militar. Por isso, eventuais crimes cometidos submetem-se à jurisdição federal, havendo atribuição do MPF.
 
"Em um regime de exceção, pouco se pode conhecer dos procedimentos adotados para manutenção do poder. Somente com a abertura ao diálogo e à manifestação pública, podemos reaver o contato com o que nos foi negado, e buscar a verdade sobre fatos quase perdidos em um tempo de restrição às liberdades", disse o procurador Eduardo Santos, que integra o Grupo de Trabalho (GT) "Justiça de Transição". O GT, formado por procuradores da República, tem como objetivo promover a investigação e persecução penal das graves violações de direitos humanos cometidas durante a Ditadura Militar no Brasil.
 
A investigação do MPF está alinhada também à sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que condenou o Brasil por violações de direitos previstos na Convenção Americana de Direitos Humanos nos vários episódios sucedidos no contexto da "Guerrilha do Araguaia".
 
A sentença estabeleceu a obrigação do país de investigar quem são os autores materiais e intelectuais do desaparecimento forçado das vítimas, em razão do caráter permanente desses crimes, não aplicando a Lei de Anistia em benefício dos agentes de crime, nem prescrição ou qualquer outra excludente de ilicitude para eximir-se de investigar.
 
AUTOR DO LIVRO AFIRMA QUE A DISCUSSÃO ESTÁ APENAS NO INÍCIO
 
O jornalista Rogério Medeiros, um dos autores do livro 'Memórias de uma Guerra Suja', que traz relatos sobres às atrocidades praticadas nos anos 70 e 80 contra militantes de esquerda durante o regime militar, concedeu uma entrevista por telefone no dia 04/05 ao jornalista Carlos Alfredo no programa Band Notícias. Para Medeiros, este é o momento para se abrir uma discussão sobre o tema, pois, segundo ele, "ainda existe muitas coisas escondidas e crimes que ninguém sabe".
 
"Eu acho que o Cláudio Guerra tem que pagar pelos crimes que cometeu. No livro, ele fala na primeira pessoa... Como ele matou, como fez, enfim, foi ele que apontou a Usina Cambahyba como o local de cremação de corpos de militantes políticos e destacou a estreita relação destes militares com esta usina. Havia muitos conflitos naquela região e houve uma contrapartida que não entrou no livro, que inclusive, a filha do dono da Usina talvez não tenha conhecimento. Pessoas da família dela foram assassinadas e muita gente que o Cláudio Guerra assassinou em favor da família dela", afirmou.
 
Sobre a reação do ex-delegado ao retornar a Usina Cambahyba, Medeiros foi enfático ao descrever a frieza do torturador. "Estamos falando de um homem que assassinou pessoas durante 40 anos, não estamos lidando com um santo, ele foi um profissional da morte e o livro o trata assim. Quando resolvemos fazer o livro com ele, nós já tínhamos este conceito. Ele nos disse que era mais fácil queimar os corpos do que desaparecer com eles", conta, destacando que seu objetivo foi dar início a um debate muito mais amplo sobre a questão.
 
"Nosso objetivo foi abrir a discussão e novos fatos serão revelados a partir de agora", explica.